Começamos aqui e agora uma viagem pela História de mulheres como Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Eliana Alves Cruz, Djamila Ribeiro, mulheres negras que dedicaram e dedicam suas vidas a descortinar e desconstruir as barreiras mais perversas que dividem a sociedade ao longo dos tempos: a do preconceito, da injustiça, da indiferença e da invisibilidade que fez com que durante décadas milhares de pessoas fossem subjugadas e submetidas a condição de inferioridade pelo único fato de ter a cor da pele diferente.
Essas mulheres foram e são responsáveis, cada uma em sua época, por servir como farol, como referência, e através de sua representatividade, de levar muitas outras a levantar-se e ocuparem seus lugares afirmativamente, com orgulho, brilhantismo e legitimidade.
A primeira que aqui retrataremos é Carolina Maria de Jesus. Mulher negra, semi letrada, catadora de papel, egressa do meio rural de Minas Gerais, que como muitas, vai tentar uma vida melhor e mais farta na cidade de São Paulo e que por não mais se encaixar no perfil admitido pelos seus empregadores pelo motivo de uma gravidez, se viu sem um meio de sustento e sem teto.
O Canindé, primeira favela da cidade de São Paulo, acaba sendo para ela assim como para muitas, a única opção de moradia e o lixo, os escrementos da sociedade central, passa a ser a garantia de seu parco pão.
A partir desta posição de excusão do centro, de mergulho na realidade da periferia e do esquecimento, como se enfiada no fundo de uma gaveta qualquer, que Carolina começa a esboçar seus primeiros escritos em pedaços de papel por ela recolhidos do lixo. Escritos que mais tarde deram origem a seu primeiro livro "Quarto de despejo".
"Quarto de despejo" compila em suas páginas a vivência cotidiana da autora e suas percepções sobre a vida na favela com a lucidez e crueza de uma mulher simples e ao mesmo tempo de olhar refinado e atento às nuances da excusão, pelo fato de a sentir a todo momento.
O que se lê nas páginas escritas por ela, não é nunca foi e jamais será a História dela. É a História do povo negro, sobretudo das mulheres negras, oprimidas, escanteadas, obrigadas a forçar passagem, a empurrrar portas por onde quer que andem.
Fonte: https://tvbrasil.ebc.com.br/caminhos-da-reportagem/2020/11/carolina-de-jesus-escritora-alem-do-quarto